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Traste, ou trago-te eu?

Há oito anos que tropeço neste vitelo. Preto, grande, alegre, coerente e com uma forma de enrugar ora uma ora outra sobrancelha que toca para sempre os mais chegados. Pois envelheceu. Encheu-se-me de ferrugem. Há dois dias apareceu-me na sala, às onze da manhã _ não gosta de se levantar muito cedo_ a arrastar as patas traseiras. Sono? Tolice? Não. E eram as duas ao mesmo tempo. Soaram-me as sirenes, o meu cão não anda, doutor, traga-o já. E ele que passa dos 50 kilos, e muito. Conseguir que entrasse no carro, antes já tinha caído para dentro das ervas à beira aqui do caminho, na tentativa de aliviar a bexiga.

No raio x, quando tentaram o plano em que tinha que ficar de barriga para o ar, aí, aí, tive que gritar parem, ou ele parte isto tudo e nós voamos lá para fora. Um gajo está cheio, mas cheio de dores, deixa que lhe enfiem o termómetro no rabo, apalpa aqui, dói?, pois sim senhor, apalpa ali, dói? pois sim senhor, e depois, querem-me vencido em cima desta cama de ferro, de barriga para o ar? E ela feita convosco? Nã. Nã.Nã.

E nã. Eu não estava feita com eles. Tiveram que fazer o raio x de lado. Também com tantas astrites, artroses, hérnias e o diabo a sete, qualquer posição dava.

E agora, cortisona, meu preto. Todos os dias, até ao fim dos dias. E litros e litros de líquidos, mais os que vejo sair que os que vejo entrar. E inventaste aquele bater de dente igual ao de quem tem frio para dizeres ou é JÁ, ou faço no tapete.

E largo tudo, e vou descalça, e espero agachada contigo aqui à beira do caminho, dois e às vezes três minutos, até que te alivies. Depois voltamos a casa, calço as galochas  lá vamos, como antes, armados em fortes, meter medo a quem nos passe pela frente.

Trago-te eu, claro, meu cão.

E trago-te o brinquedo de peluche, de cada vez que chego a casa e na aflição da alegria ficas sem saber dele.

Abandono

Frida, porque se parece com ela, fêmea, simpática e educada foi vítima de esquecimento voluntário. Está acolhida nas traseiras de um restaurante de verão. E todos sabemos que o verão acaba. Cá em casa já há dois canídeos e pouco espaço. Algum coração com espaço por aí?