India Velha

Os senhores do 10º andar

Julho 8, 2009 · 1 Comentário

Angola-2

De 1969 a 1974 vão cinco anos. Cinco anos em que vi a minha mãe espreitar para dentro do átrio do prédio antes de entrar. Evitava cruzar-se com os funcionários da Caixa da Polícia que tinham o escritório no 10º andar, um piso acima do nosso. A Pide não a deixava trabalhar, o meu pai tinha morrido ‘em serviço’ e entre a renda alta (o meu avô não incutiu nos filhos a cultura da propriedade privada), o colégio caro e as outras coisas, o assunto não estava fácil. Mais a mais, com as qualificações dela, era difícil que de um dia para o outro não surgisse um trabalho bom. Mas mesmo assim, de cada vez que se cruzavam connosco, os da Caixa faziam questão de lembrar as rendas em atraso, perante toda a vizinhança. A minha mãe calava, pegava-me na mão e baixava os olhos. Em 74 as coisas mudaram. Houve a guerra civíl, não havia açúcar, e a minha mãe comprava marmelada para adoçar o meu leite, quando o havia. Os cavalheiros, encabeçados pelo chefe, que era surdo, usava Sonotone e falava muito alto dirigiam-se em bloco ao ministério da minha mãe, atestados médicos numa mão e quilos de açúcar ou de café na outra. Ou volumes de cigarros, que ainda valiam mais, apesar de ela não fumar. Pediam uma guia de marcha para regressarem à Metrópole antes dos demais. Havia dias em que não havia aulas e os guarda costas iam buscar-me ao colégio. Eu sentava-me numa secretária no gabinete ao lado do da minha mãe e martelava incansável as teclas daquelas IBMs já eléctricas e super modernas. Ou divertia-me a pôr folhas de papel no destruidor. Quando via entrar os do 10º ficava aterrada. Depois lembrava-me de que os papéis se tinham invertido e agitava-me com a hipótese de vingança. Ela assinava todas as guias de marcha mas eu continuei a adoçar o leite com marmelada. Se lhe perguntava, dizia que tinha pena deles e do medo que sentiam. Já fui acusada de ser demasiado Calvinista. Souuáte? Não sou como ela, há pessoas de quem não consigo ter pena. Socorro-me de um certo budismo, que paguem agora, nesta vida, e talvez encarnem melhor para a próxima. Assim o desejo. Tudo isto para justificar a falta de simpatia pelos que perderam os tostões no BPP.

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Da hipotética vida endinheirada

Julho 8, 2009 · Deixe um comentário

Ora bem, fujo à guerra colonial, espeto-me na Rodésia, de seguida ando pelo mundo a juntar tostões. Volto a Portugal, a taxa de juro oficial é de 1,3%, mas um banco privado, que só aceita clientes com um mínimo de um milhão de euros promete 5% POR TRIMESTRE. Eu, como sou atrasada mental e sem custódia judicial, assino um contrato em inglês, em que sou informada de que o capital será investido em isto e aquilo, risco e rabisco, finjo-me analfabeta, e assino. Só vejo os 5% ao trimestre. O tempo na Rodésia também não me deu para aprender inglês. Um dia o banco estoira. Já não tenho o meu cadinho. Tenho ataques, espumo da boca, invoco a operação do meu Ruben Emanuel e as obras lá de casa. Outros invocam que o Salvador e a Constança já não podem fazer o MBA este ano, seja lá o que isso for. Poupem-me. Quando a esmola é grande o pobre desconfia. Quando aceita, é como pôr areia na vaselina e ainda perguntar de que cor quer o donante, e se porventura deseja algum aroma. Já tinham a lição do Madoff, mas acreditaram que o Estado português lhes ia garantir o capital que à foçanga entregaram a um banco privado e elitista.

Um garoto sentado nas escadas da Sé de Braga grita para o outro que chega a correr:

-       Num biestes à dótrina? Fedesseste, o sô cura dê sàntinhes!*

Pois é, o sô cura dê sàntinhes, e continuará a dar a quem se fingir otário, ou Chico Esperto. Assim de repente não tenho vagar para distribuir os meus impostos por estes cavalheiros. PUTA QUE OS PARIU. Quem joga na pirâmide espera que o governo os indemnize quando a coisa estoira? E quando foi da D. Branca? Mas ainda houve um cabrãozinho, o tal que ‘fugiu à guerra’, que disse que o que cá fazia falta era outra PIDE. Mais um bocadinho e começo a acreditar em Deus e nos Seus castigos taumatúrgicos.

 

* Ouvisto ao vivo e em directo por uma amiga.

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Crise

Junho 19, 2009 · Deixe um comentário

A igreja católica sugere aos seus padres a contribuição de 10% do salário como ajuda para ultrapassar a actual crise.

Eu não disse que eles eram mesmo maus? Tinha razão ou não tinha, hã?

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Vão bem, obrigada

Junho 19, 2009 · Deixe um comentário

Rosas blog

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A casa de vidro e madeira

Junho 19, 2009 · 2 Comentários

woodhouse3 Está construída vai para 10 anos, mas não encontro fotografias.

Com que então a GB??!!

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2053?

Junho 18, 2009 · 3 Comentários

Um concurso na televisão espanhola oferecia cinquenta mil euros a quem apresentasse a solução do problema. Mantive-ma acordada até às cinco da manhã. Ninguém conseguiu, e foram muitos os que responderam. Esperei pela solução, mas tenho muitas dúvidas.

 

Aqui está o enunciado:

 

101 + 8 x 2 – (3 + 9) – 7 + 5 + 9 – 6=


A mim parece-me matemática básica, mas por muita conta que fizesse também não cheguei ao resultado, que dá para cima de 2000.

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A porra do Sonotone

Junho 15, 2009 · 1 Comentário

Enganada. Só posso estar enganada. Ou o Sonotone ficou sem pilhas. 1 900 milhões, sim, MIL E NOVECENTOS MILHÕES de euros para construir 30 km de TGV.

E um outro fulano, ministro, suponho, garante que 54 000, CINQUENTA E QUATRO MIL empregos definitivos serão criados com o dito comboio em Portugal. 

54 000 almas a trabalharem só para o comboio e os tais milhões para os kl, em quanto fica o bilhete para Madrid?

Tentei chegar ao preço por kl, mas são demasiados zeros para mim.

Valha-me Santo Eucarário, já me pergunto se não será da antena estar mal direccionada. Ou a pilha do aparelho? Ou eles mesmo? 

Junto isto ao pânico generalizado por terem morrido 158 pessoas com  vírus H1N1 (quantos morrem por dia só em Portugal com a nossa velha gripe?) e começo a acreditar que o problema é mesmo meu. Ando a comer alguma coisa que reduz drasticamente as minhas capacidades cognitivas.

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Post Seguinte

Junho 1, 2009 · Deixe um comentário

Este blogue contém fotografias eventualmente decepcionantes de Luis Figo.

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Inter-Milan-Luis-Figo-001

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Não se aplica

Maio 31, 2009 · 2 Comentários

meninas africanas lesbicas negas trepand

luis figo nu

india nua vestida com pena sexo

historia do bolos da india de gelatina m


Lamento não poder servir estes delicados buscadores. Por outro lado, a lista de buscas que os fizeram cá vir parar é a única coisa de interessante que me tem acontecido. Para além de ter outra vez a canalização de casa entupida. Começaram as investidas dos turistas, fartam-se de tomar banho, e como a minha é a primeira casa a contar do mar, tramo-me. Dão-me taquicárdias quando penso que vem aí Julho e Agosto. Começo paulatinamente o açambarcamento de víveres. Faço surtidas aos restaurantes da serra em antevisões estratégicas. O mar tem dado muita conquilha, mas o das ostras de Cacela ainda não abre à semana. O Levante continua bravo e a água está no ponto. É tudo.

Ps.: Também apanhei umas multas valentes por não ter nenhum dos documentos exigidos para a condução de carro, excepto a carta, que me foi diligentemente apreendida. Foi-me aconselhado escrever ao Governador Civíl manifestando avançado estado de pobreza para que as coimas me sejam eventualmente desculpadas. Também não me custa assumir que não gosto mesmo nada de vírgulas. 

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Ralações

Maio 22, 2009 · 2 Comentários

Querido Arquiduque:

A Guiomar não tem bula e vademecum? 

Já são muitos efeitos secundários,

e preocupo-me. 

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Aleivosía

Maio 14, 2009 · Deixe um comentário

From now on the english language will be the only one used here.

 

Costa chile

Amanhã talvez mude para catalão.

Mudo muito de ideias.

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I(n)diossincrasias

Maio 6, 2009 · 1 Comentário

A minha mãe fugia dos pacotes de puré como um pigmeu ancestral foge de um transistor.

Pelo meu lado, mudo de passeio quando passo na rua da moça que abriu um come-e-bebe para cámones e propõe gelatina caseira para sobremesa.

Mas enquanto fazia o jantar pensei nas memórias que a maior parte das pessoas que conheço tem das melhores comidinhas “lá de casa”, e os grandes vencedores são pratos de frango feitos pela mãe. O meu era o frango com whiskie e puré. Uma coisinha rápida, pelo meio flambeia-se o frango, as batatas estão quase no ponto, depois não dá trabalho nenhum, é só passar no passevite juntar o leite, as natas, a noz moscada, pimenta, a manteiga e bater, acrescentar os ovos batidos, contas feitas vão seis tachos e tigelas só para o dito, mais a geringonça de passar e a batedeira.

 Esse frango ocupava o 3º lugar no ranking do que ela chamava “comida de puta”, só vencido pelo bife com batata frita e as salsichas com ovo. Ainda assim consegui convecê-la a fazer bifes duas ou três vezes.

 Agora reconheço o olhar de viés quase a deserdar-me e o desgosto profundo de ter uma filha que prefere o fast food. Sim, porque a minha mãe cozinhava assim esses pratos rápidos na folga do pessoal* e aqui a degenerada gostava. Se sonhasse que muitas vezes uso cogumelos de lata…

Lá em casa o pessoal esteve de folga de Setembro de 1969 a Abril de 1974. Sim, vivíamos um pouco a contra-pêlo. Algum problema?

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Que bravo anda o Levante

Maio 6, 2009 · Deixe um comentário

Assomou-se aqui à balaustrada em crise de incontinencia verbal. Avisei uma vez, não parou. Avisei segunda vez, e antes de terminar já lhe tinha partido um vaso na cabeça. Mas o rapaz continuou. Agarrei numa pedra da minha colecção, mostrei-lha, e nem assim se calou. 

A visita saldou-se com a amputação de uma lasca orelha por via da pedra, um rasgão no couro cabeludo por via do vaso e eu com um olho azul por via do tabefe que recebi a seguir. Mas lá que ele sangrava, sangrava. E não voltou.

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Acima de tudo

Maio 1, 2009 · Deixe um comentário

Sabe como gosto das não coisas.

Digam-me que não há nuvens e eu invento-as no seu melhor.

Falem-me em instantes e transformo-me em relógio sem ponteiros.

Reconheço o esplendor pelas vontades que o imbuem.

Sei de cor todos os fados cantadores de pinheiros,

lareiras e chãos de aldeia.

Gosto de patetas apressados e dos seus rastos de borrões.

Acima de tudo gosto de gostar.

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Morreu-me o Zé Maluco

Maio 1, 2009 · 1 Comentário

Agora quem me traz rosas silvestres?
Encontraram-no morto na berma da 125. Eram 3 da tarde. O Cláudio romeno veio dar-me a notícia. Sabía o quanto o estimava. Disse-me que a semana passada a malta da vila lhe tinha batido. Por isso morreu. Talvez. Ouvia-lhe religiosamente a chiadeira da artrite, o coxear da ciática, e as recordações de quando era enfermeiro psiquiátrico, antes de se meter nas duras. Mas retirou-se há anos. Agora vivia na casa onde nasceu e com a reforma pagava o empréstimo da casa da filha. Vivia de esmolas. Era inteligente. Era educado. Era um cavalheiro. Não era maluco. Todos lhe batiam. Estou triste.

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Delicadezas

Abril 29, 2009 · 4 Comentários

Vivo uma história de amor rara. Ele, 24 anos feitos hoje, não me diz uma palavra para além das que os olhos pretos disparam na minha direcção. Olha-me da cama quando preparo o Nestum matinal. Ajuda como pode, quando o visto na horizontal dos seus quase dois metros. Perante um qualquer desconforto agarra-me a mão e apaga-se-me o resto do mundo.  Gosto-lhe o cheiro da nuca. Faço-lhe a barba, não tão amiúde como devía, mas é um momento solene. Protejo-o. Ele defende-se. Defende-se com uma saúde de touro, desafiando as premonições dos médicos, insultando as estatísticas e sendo feliz. Aos dois meses deitei-o na minha cama e fiquei a olhá-lo. Era um rapazinho perfeito. Sorria-me. Abracei-o e confessei que gostava que  ficásse sempre assim, congelado naquele momento íntimo, na depêndencia que nos faz sentir fortes. O universo fez-me a vontade, um mês depois, na forma de uma doença rara. Nós os dois, com os médicos e os terapêutas, conseguimos que chegásse aos oito meses de desenvolvimento. Depois, senti que era contra sua vontade, e não deixei mais. Chorei, só aí chorei, temi estar errada, mas o Nuno Lobo Antunes com aqueles olhos de água garantiu-me que estava certa. Cá vamos andando, felizes e contentes, neste amor que não usa calculadora e que se faz de abro-te a janela para ouvires os pássaros, ai Jesus que tenho que casar com o dono da EDP, 260 euros de luz não é mole, mesmo nos tépidos algarves faz um frio de rachar para quem passa as noites contente e aos pinotes na cama e se destapa.

Parabéns, António. Amo-te

Obrigada, Nuno.


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Pintas, o anti-Sócrates

Abril 28, 2009 · Deixe um comentário

 

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Novo gancho

Abril 27, 2009 · Deixe um comentário

Favoritado de fresco

Acto Isolado

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…, mas compostinha

Abril 27, 2009 · Deixe um comentário

A tia Ermelinda faz umas belas pomadas. Chamam-lhe enóloga, ou aeólica, ou o caraças, mas acho que é mesmo só inveja.

Só não tenho soluços porque fica mal às senhoras.

…sença que tenho que ir apanhar ar.

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?

Abril 25, 2009 · Deixe um comentário

Sempre

(?)

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As mulheres

Abril 23, 2009 · Deixe um comentário

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões 
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos – digo, 
As mulheres – ainda que as casas apresentem os telhados inclinados 
Ao peso dos pássaros que se abrigam. 

É à janela dos filhos que as mulheres respiram 
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas 
Transformam-se em escadas 

Muitas mulheres transformam-se em paisagens 
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram 
Nos ramos – no pescoço das mães – ainda que as árvores irradiem 
Cheias de rebentos 

As mulheres aspiram para dentro 
E geram continuamente. Transformam-se em pomares. 
Elas arrumam a casa 
Elas põem a mesa 
Ao redor do coração. 

Daniel Faria
de Homens Que São Como Lugares Mal Situados (1998)

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Encarnado

Abril 22, 2009 · Deixe um comentário

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Mau Maria

Abril 21, 2009 · Deixe um comentário

É desta que começa o calor?

É que andar de samarra e havaianas não faz o meu estilo.

Sou mais pão pão, queijo queijo.

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Merci

Abril 20, 2009 · 2 Comentários

degas

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Notícia requentada

Abril 20, 2009 · Deixe um comentário

Um cavalheiro de sessenta e nove anos recebe a notícia de uma doença terminal. Aborrecido, decidiu cumprir a promessa de acabar com a raça de uns quantos que estavam na sua lista negra. Começou por um amigo. Esfaqueou-o. Mas o pobre não morria. Um homem que passava na estrada parou o carro e socorreu o esfaqueado. O outro foi a casa buscar a arma. Regressa ao local do crime e dispara sobre os dois.  Mata o amigo bem morto. Mata mais uns tantos e suicida-se. O socorrista está em estado crítico. Os noticiários rebolam de prazer. Dois dias depois já não se fala no assunto. O nosso socorrista acaba por morrer devido aos ferimentos. Ucraniano. No exacto dia da sua morte, o Correio da Manhã trás para a primeira página “70% dos homicidios em Lisboa são perpetrados por estrangeiros”. Ninguém fala do ucraniano que morreu a tentar salvar um português. Será que a família teve dinheiro para pagar a repatriação do corpo?

ucraniano-sem-abrigo



 Fotografia daqui: www.infonature.org/ site-pt/node/117

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Oh mãe!

Abril 17, 2009 · Deixe um comentário

Se bem compreendi, agora tenho que dividir tudo o que roube, corrompa ou suborne com o Estado. Menos mal, pior era dar com os costados na choldra. E mais importante ainda, a coisa passa-se só entre mim e as Finanças, não dá bandeira e os jornais não vêm a saber.

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Picanço (?)

Abril 3, 2009 · Deixe um comentário

If you are over the age of 40, take two baby aspirin. I find these are particularly beneficial if taken with a margarita.(momo-fali)

Do aqui ao lado favorito http://blogtations.typepad.com

Pêesse: Eu sei que não é difícil fazer-me rir, mas este blogue é do hilário

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Oh mãe!

Abril 2, 2009 · 5 Comentários

Aqueles moços do norte devem ter fenecido. E eu que gostava tanto deles. De um e do outro!

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Digamos que

Abril 2, 2009 · Deixe um comentário

A morena impressionou-me desde o primeiro minuto. Tinha um blusão de ganga com forro de flanela rosa, com o Mickey estampado. Era ao mesmo tempo um blusão de lutador de boxe. E calças de ganga, botins de camurça amarelos e uma camisa de homem branca. Encostada à moldura da porta da pensão Rocio, de mãos os bolsos. Sem eu saber como, está na minha mesa. Talvez convidada de algum amigo. É cumprimentada com deferencia por homens de cinquenta e sessenta anos que passam por ali. Um ou outro cigano dá-lhe as boas tardes. Quando passei por aqui hoje mais cedo estava sentada com um homem corpulento, tatuado e sem os dentes da frente. Pareciam íntimos. Sorriam e contavam piadas, pensei.  Agora diz-me que vive por aí, entre a Pensão do Galego e as escadas dos prédios da Calçada de Santana. Quero saber da família, mas fica pouco à vontade. Os olhos correm de um ponto ao outro da Praça, dos que se apressam para apanhar o autocarro aos que vão chegando. O transito a esta hora é violento. Quero saber se estuda, e diz-me que deixou a escola por alturas do gonçalvismo, voltou lá com o filho recém nascido de uma amiga e explicou aos professores que não podia continuar nas aulas. À mãe prometeu acabar o liceu e formar-se. Tinha que fazer os exames do quinto e sétimo ano brevemente. Como? Não sabia, mas tinha que cumprir. Foi essa a troca. “Desde que acabes a escola…” Queria estudar ciências politicas. Tinha estudado línguas na Alemanha, depois da operação ao braço. A mãe levou-a para lá quando achou que a revolução a estava a desencaminhar. Preocupavam-na as eternas calças de bombazina preta e as camisas vermelhas de xadrêz. Estava cansada de se preocupar com ela a cada manifestação de estudantes. As coisas agora eram diferentes. Sempre que telefonava aos amigos para saber se a filha tinho sido presa, a coisa pertencia invariavelmente a uma outra polícia, sobre a qual pouca influencia tinha. Eles eram mais das secretas, ultimamente diluídas na Policia Judiciária. Os amigos do pai dividiam-se entre mortos e subversivos. Ou traficantes de diamantes. Ou recrutadores de mercenários. Viviam nos subúrbios e encontravam-se também eles ali no Rocio. A mãe tería preferido paixonetas, histórias de amores adolescentes, mas a coisa tinha acabado onde começara: naquele namoro forçado para contentar os amigos, com o rapaz bem parecido, loiro e deferente que lhe cingiu a boca, do queixo ao nariz num primeiro beijo desastrado. Sentiu-se ridícula, e durante anos não quiz saber de amores. Ainda se iludia com o perfume do Pantera, mas agora que todos usavam patchouli, passaram a ser indiferentes. Perguntei-lhe o que andava a fazer, onde morava agora.

- Ali em Sete Rios – respondeu.

- E então, a pensão do galego, já não estás lá?

- Enquanto estava no Norte a fazer as fotografias para a revista de turismo o galego entrou no quarto, viu a porta do roupeiro a fazer de bancada de cozinha e não gostou. Achou que eu já não morava lá e pôs o Lucio na rua. Imagina que guardou a minha roupa, para quando eu chegasse. Não a quis entregar… Mas depois ainda fui morar para o Hotel Neto, em Sintra.

- Não mora lá o Chico Cigano?

- Morava, e eu morava com ele, na suite imperial. Dormia num colchão de espuma na sala, e em troca tinha que lhe fazer o jantar todos os dias. Com o dinheiro que ele roubava das lunetas, imagina. Comiamos todos os dias a mesma coisa, mas ele ficava feliz desde que houvesse sopa e um prato.

- E a polícia? Era mesmo ali ao lado!

- Bem, a polícia só vinha recolher as lunetas, nunca ficavam estragadas. O braço direito do Chico já não funcionava, depois da queda da moto, por isso ele fazia as coisas com jeito. Não é em vão que todos gostavam dele.

- Gostavam?

- Não sabes? Morreu! Uma semana depois de eu me ter mudado. Não comia desde aí, foi ao snack da Portela, deram-lhe um bife e engasgou-se. Saiu discreto e quando o empregado lhe sentiu a falta, foi lá fora e já o encontrou morto. Senti-me mal, muito mal. Ainda acho que se não me tivesse vindo embora ele não teria morrido. Eu fazia-lhe o jantar, e ele protegia-me.

Mostrou-me o corte no polegar. Uma lata de concentrado de tomate, das mais pequenas. O roteiro repetia-se a cada fim de tarde. Com as moedas das lunetas comprava um chouriço, uma embalagem mini de tomate, um pacote de massa e batatas na mercearia da Vila Velha. Passava pela estação de comboios e rapava uma folhas de couve. Caldo verde com chouriço e bolonhesa. Ainda dava para o vinho dele, garrafa cinco estrelas.

            -Tenho saudades dele. Sabes que nunca me contou a história da mulher? E eu também tinha medo de lhe perguntar. Eu já sabia do circo, das facas, de ela ter fugido, mas gostava mesmo de o ouvir contar. Nunca me deixou usar a casa de banho do andar, e eu tinha que fazer xixi pendurada no parapeito, ele a agarrar-me os braços, para não cair. Os do Hotel Tivoli odiavam-me. Os turistas divertiam-se com o meu rabo lá no quarto andar e a parede molhada. Para o resto, usava a casa de banho do Central. Tomava banho no quarto do Michel, lá em baixo, no outro hotel. Mas ele voltou para a Guiné, com o projecto da Unesco. Foi uma atrapalhação quando lhe pedi a máquina fotogafica e as lentes. Não dormia com medo que as roubassem, e o Chico mandou-me amarrar tudo ao pulso durante a noite. Os dos outros andares podiam apanhar-me adormecida, e era o cabo dos trabalhos.

-       Pensava que o Chico tinha sido sempre assim. Bêbado e desocupado. – Interessava-me agora. Conheci o Chico Cigano na Taberna da Vila Velha. Vi que era estimado por todos. Tinham-lhe carinho. Na taberna nunca lhe cobravam o que bebia, por exemplo.

Não me respondeu. Estava entretida com um garoto que se lhe sentou ao colo. Tentava mostrar-lhe o arremesso de bigode. Tinha pintado o cabelo e ela ria-se. Estou a ficar homem, não estou? Com esse cabelo não vais longe. Encontrei um frasco. Encontraste ou roubaste? Encolhe os ombros. Não estavas hoje no autocarro. Já se nota? Se rapar todos os dias cresce mais depressa, não cresce? Também roubaste a gilete? E por cima do ombro dele: Este meu amigo chama-se Cedet, que é José em estrangeiro e já foi ao Algarve e voltou no mesmo comboio. Vens ter comigo à entrada das pensões? Vem, vá lá. Estamos lá todos. A morena traduz-me: a entrada do palácio da Horta Seca, onde agora se pagam as pensões de sangue fica aberta depois do expediente. Foi lá que se conheceram. Ela a tratar da pensão de sangue e ele a tentar roubar. Tinha nove anos. Pira-te, puto! Porquê, és dona disto? Sim! Da casa???!! Sim!!! Tándar!!! Da casa? Já disse, andor! A casa é tua? Sai daqui! Já ele estava na rua, à frente do dedo estendido. Ameaças de canivete e uma chapada desarmante na mão. Voltou para a bicha dos títulos. Ia lá todos os meses. Á saida viu-o com os amigos. Urdia vinganças. Depois encontrou-o no autocarro. Então, já te vingaste, ou é agora? O miudo não tinha bilhete, melhor era não fazer escandalo. Ela obrigou-o a sentar-se ao seu lado, e foram o resto do caminho a rir. Ria do nome, ria dos modos e ele lá se foi encaixando debaixo do braço dela. Percebeu que com aquele rapazinho não se falava de pais nem de famila, nem de casa. No dia seguinte, lá estava ele no autocarro. E nos outros dias, por muito que alterasse os horários. Tocava gaita de beiços, berrava, perguntava se era bonito e ela encolhia-se no banco, a rir.

- Ele acreditou que a casa era tua?

- Pareceu-me, mas não era por aí.

   - Ainda te lembras da tua casa? E da dos teus avós?

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Digamos que II

Abril 2, 2009 · Deixe um comentário

- Lembro-me de todas, de toda a família. A minha era em Luanda. A primeira tinha uma palmeira grande e um Citroen antigo no quintal. E um jardim à frente. E o canteiro de morangos e tomates que a minha mãe mandava plantar para mim em todas as casas. O meu avô estava lá quando morreu. Fizeram o velório na sala. Não encontravam quem fizesse o caixão sem crucifixo e as pessoas não compreendiam que não houvesse flores, nem santos nem padre. Eu andava por ali com o livro do Vilhena debaixo do braço, a caneca de sal e o frasco de Calcigenol cheio de água. Tiraram-me o livro, por causa da PIDE e fiquei desolada. Mas o pior foi não me deixarem ir ao enterro. A minha avó só falava do bacalhau que tinha trazido de Malange. Os meus tios estavam preocupados porque o cão do meu avô tinha deixado de comer. Deixou-se morrer, mas ainda durou uma semana, o pobre.

-       O cão deixou-se morrer?

- Morreu. Era de uma das ninhadas do meu pai, o melhor de todos, e o meu avô saía todos os dias do escritório para vir lanchar a casa. Comiam torradas, os dois, na varanda de trás. Chamava-se Sinope. Zangou-se comigo uma noite, quando estava no quarto dele a ouvir a BBC. Torci-lhe o rabo distraída e mordeu-me de raspão. A culpa foi minha, e não me esqueço.

Já tinha ouvido falar dos cães do pai. Dois tinham sido condecorados e ela andava com uma fotografia tirada aos dois anos, vestido branco, fralda, sapatos ortopédicos, sentada num canteiro de flores com uma boneca ao colo e o cão ao lado, em pose de guarda. O pai tinha-o treinado para a proteger. Não a deixava sair da cama e punha-se à frente quando descia as escadas, para amparar qualquer queda. Os homens do Luso falavam muito do cão. Quando cresceu, o cão passou para a avó e depois foi para casa de uma tía. Depois do 25 de Abril viram-no ser roubado. Ou levaram-mo. Ou ofereceram-no Ou abandonaram-no. Não gosta de falar desse cão. Mas ri-se quando conta o episódio do nome. Lá em casa gostavam do Kenneth Kaunda, e puseram-lhe o nome. Quando tiveram que receber o presidente em casa, o pai preocupou-se. Podia ser um incidente diplomático e pensou em mudar o nome. Inútil, a qualquer momento distraía-se e lá saía o nome. É melhor assumir, pensou-se. O certo é que a visita se achou honrada, e mandou fazer uma taça com o nome e foto própria, para a água.

-       E os outro cães, lembras-te?

-       Quando a minha mãe me mandou para o Luso, depois do acidente, vi a N’guri no quintal, amarrada a uma árvore. Empurravam a tigela da comida com um pau, ninguém se podia chegar. Senti muita pena dos dois. Do meu pai e da cadela. Nunca cheguei a saber da outra. No meio do velório do meu avô uma cigana entrou em casa e começou a vender cortes de tecido. Espalhou-os no chão, à volta da mesa onde estava o caixão e fez negócio. Nem reparou que havia ali um morto. A mulher dizia que os tecidos tinham padrão Picasso.

Também não gostava de falar na morte do pai.

O Chico trabalhava num circo, atirava facas naquela coisa da roda, e a mulher era a “partner”. Mas fugiu com outro, o Chico começou a beber e deu no que deu.

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Bondade

Abril 2, 2009 · Deixe um comentário

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Posto de observação

Abril 1, 2009 · Deixe um comentário

Actualmente vírgula os homens não só continuam a não baixar a tampa da retrete vírgula como não apagam o histórico da internete. Daí que saibamos da sua insaciável curiosidade pela anatomia feminina ponto.

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Protesto

Março 25, 2009 · Deixe um comentário

Aqui a moldava do Broadway está possessa. O transistor aos gritos sintonizado na Rádio Guadiana debita passagens brilhantes. Acabo de assistir a uma de antologia: de Fredie Mercury e Montserrat Cavalle para Quim Barreiros. Se deixar de aparecer é porque sofri um AVC.

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Olhó sonoro

Março 25, 2009 · Deixe um comentário

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Falai no mal…

Março 20, 2009 · Deixe um comentário

Nasci e cresci em Angola. É sabido. Por razões de segurança, não pude estudar numa escola pública, como mandava a tradição (a nossa). Na primária, ainda me safei. Estudei no Gil Vicente, colégio laico, mas para o liceu, só havia o São José de Cluny. Com a inscrição tínhamos que comprovar baptismo e primeira comunhão. Fiz uma catequese corrupta. A minha mãe comprava-me com baracuca na igreja de S. Paulo. A custo, aprendi Pai Nossos e Avé Marias. Vivia lá em casa uma rapariga “da metrópole”. Chamava-se Miquelina (a sério) e tinha feito o Crisma, seja lá o que isso for.  Recebeu por isso um enorme crucifixo de ouro, que me apressei a roubar e trocar por um estojo com o meu único colega negro, Américo Boavida, que rapidamente trocou por outra bugiganga qualquer. Nem eu nem ele fazíamos ideia de: 1º: o que é um crucifixo, 2º: ouro é diferente de missangas?. Mas a santinha não se zangou comigo. Antes pelo contrário. Foi minha madrinha de baptismo. Tinha eu 9 anos. A minha mãe encontrou uma igreja de musseque, onde batismos e comunhões eram em massa. …para pretos… Em casa, ensaiava com a Miquelina. Em raides rápidos à igreja, cronometrávamos a distância entre a pia batismal e o altar onde se dava a primeira comunhão. E eu empazinada de baracuca, cafufutila e toda a porcaría que se vendesse nos musseques. O grande dia chegou, enfiei a cabeça na pia, molharam-me e já a minha mãe torcia as mãos de desespero; se não me despachasse não chegava a tempo da hóstia. Mas lancei-me numa corrida e lá engoli a coisa. Depois foi só ir lá atrás à sacristia e pedir os papéis.

O colégio era de madres. Eu tinha uma amiga mulata e consideravam-me muito chunga. Além disso era orfã. Estava relativamente fodida, digamos. Mas, surpresa das surpresas, um dia recebemos a visita do bispo de Luanda. Ensaiámos o beija anel, todas em fila, de carrapitos no cabelo e bata branca. Quando o homem chegou ao pátio, as madres entraram em histería. Foi aí que vi que era negro. Apressavam-se e empurravam-se para lhe beijarem o anel, com a devida vénia. Vinguei-me. Quando chegou a minha vez, recusei a mão estendida. Na sala da madre superiora justifiquei-me. Era preto. Lá foi a minha mãe chamada, mais uma vez. Lá teve que explicar que a ironia era uma arte e que o perdão era católico.

A Pide não deixava a minha mãe trabalhar. Meses havia em que não se podía pagar a mensalidade do colégio. No fim do trimestre as santinhas davam-se ao trabalho de recortar tiras finas de papel para taparem as minhas pautas. Ficava sem saber as minhas notas durante mais um trimestre.

Chegou o 25 de Abril, a minha mãe integrou o governo e no mesmo dia tirou-me do colégio S. José de Cluny. 

Pêésse: É por estas e por outras que ganhei um excelente mau feitio. Bem haja!

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Histórias paralelas

Março 20, 2009 · 1 Comentário

O homem bateu à porta, cedo. A senhora assustou-se com todo aquele tamanho, as calças de bom corte e  os bons modos. Não devia ser nada de bom. Pensou no marido e naquela mania de ser anti-estado novo. Lançou-se a correr por entre os móveis, com o homem atrás e desmaiou elegante. Estava sozinha em casa. As lavadeiras estavam nos tanques ao fundo do quintal. O homem tentava reanimá-la. O criado de dentro entrou, e foi em socorro. Estava caída entre a mesa e o aparador. Atirou-se ao homem, a senhora recuperou os sentidos e viu os dois homens lutarem em cima dela. Recuperaram-se poses à força bruta do homem, a senhora sentou-se e o homem perguntou pela filha mais nova. A senhora respirou fundo. A filha estava na missão, qual missão, a leprosaria dos americanos. Que lhe quer? Fazer umas perguntas.

                                                                                                      

A consulta no dentista estava atrasada. Queria chegar cedo a casa, o marido voltava de viajem. Saiu do taxi, deu a mão à filha e preparou-se para entrar no prédio. O restaurante cá em baixo estava à cunha, a esplanada cheia de militares. O dono saiu a limpar as mãos e chamou-a. A sua filha está perfilhada? Gelou. Segurou a mão da filha com mais força. É que o Pimentel morreu. O avião caiu. Deu agora na rádio. Entrou no prédio, subiu os nove andares a pé o Pimentel morreu, o Pimentel morreu e voltou a descer. Bateu à porta da porteira, o Pimentel morreu, entrou, deitou-se no sofá da sala e repetiu durante horas a ladaínha. A filha tinha acabado de fazer sete anos.

                                                                                                   

Bicicleta, carreiro abaixo, com um vestido de decote quadrado, estampado de violetas. O tecido tinha vindo de Paris. Ele, na porta da casa, esperava. Desceu da bicicleta, subiu as escadas que davam para o alpendre, e ele ali. Gostaria de falar consigo, pode falar, trago uns papéis para assinar, não assino nada, boa tarde. Meteu o pé na porta, e não a deixou fechar-se em casa. A menina sabe das arcas frigorificas com armas da América, sabe que não trazem medicamentos, não, nunca vi nenhuma, de cada vez que as arcas chegavam eu estava em casa dos meus pais. Mas a menina é a única que pode assinar pelas leprosarias, assine, para podermos fechá-las. Fechar porquê? Sabe que as missões são focos de apoio aos terroristas. Não sei nada, não assino, e agora deixe-me fechar a porta, senão grito. Falei com a sua mãe, que confirmou. Até ela sabe das armas. A minha mãe só sabe de bolos e de filhos, não insulte a minha inteligência. Com licença. Eram quase oitenta kilometros por picada até à povoação mais próxima. Meteu-se no jipe e partiu em retirada. Derrotado.

                                                                                            

O velho deixou de mostrar o rosto. Comia ligeiro, e saía. Agora, passava os dias no jardim a podar as roseiras. Assim não o viam chorar. Aquela filha, a preferida, fugiu para o Congo com o homem do regime. Mandou um telegrama a informar que estava grávida. Em casa estavam proibídos de responder, ou mesmo de lhe mencionar o nome. Morta, estava morta. 

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Perguntinha

Março 18, 2009 · 3 Comentários

Não se pode processar o bicho por crimes contra a humanidade?

 

 

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Não falamos só sobre SIDA. São também todas as doenças sexualmente transmissíveis.

Será que o boi se deu ao trabalho de ler o Novo Testamento? Não sendo católica, conheço-o bem. Mas no fundo, os católicos sempre tiveram este pendor para as doenças sexuais. Lembram-se da sífilis introduzida na Europa pelos tão beatos evangelizadores?

O cavalheiro apoiou também o Bispo de Recife que há um mês excomungou médicos advogados e a mãe de uma menina que, violada pelo padrasto, engravidou de gémeos. A vida da menina corria perigo e os médicos autorizaram a interrupção da gravidez. Lula, que é católico, criticou a excomunhão e apelou para o Vaticano. Os anjinhos reiteraram o apoio ao bispo brasileiro e criticaram Lula da Silva colocando em questão a sua capacidade de conduzir os destinos de um país se não consegue defender a vida em primeiro lugar. Lula ainda argumentou que se tratava da vida da menina, mas não adiantou.

Enfim, tudo boa gente.


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Snipers nos telhados de Lisboa

Março 10, 2009 · 1 Comentário

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Patrocinadores oficiais da visita de José Eduardo dos Santos a Lisboa.

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Babel invertida

Março 9, 2009 · Deixe um comentário

Saio do chinês e de comprar sacos do lixo. A chinesa papagueia em português com a empregada búlgara. Estão cá há menos de dois anos. Entendem-se.

Chego ao café. A Mioara, romena, está em amena cavaqueira com um moldavo, em português. Lá em casa discuto Boris Hessen (ou Gessen) com o meu hóspede russo, igualmente em português.

Enquanto isto, leio legendas em português de TV que dizem, estudai a natureza para caminhardes em equilíbrio e para viverdes felizes. E mais não digo.

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Duplas

Março 7, 2009 · 1 Comentário

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As duplas de Hollywood pela Annia Leibovitz. Para a Vanity Fair . 

E há lá mais.

 

 


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É tão bom ser pequenino…

Março 5, 2009 · 2 Comentários

BE059951(Nunca cheguei a agradecer-lhe ter andado contigo ao colo quando estavas grávida de mim) 

Lá porque as primeiras palavras que disse foram em francês, e para o Bob Denard, posso sempre dizer que nunca o conheci, nem ao Moises Tchombé, nem ao Patrice Lumumba, nem ao Kenneth Kawunda, (espera, vou ali ver a taça que ele te deu para saber como se escreve o nome exactamente) nem a um fulano que antes se chamava Roberto Holden e depois se passou a chamar Holden Roberto, e que por acaso não partilhavam a mesma cicatriz na testa que tu conhecias quando foste professora de leprosos nas missões americanas. Um dia morro. Kenneth Kaunda, The first President,  Zambia, 24th October 1964, a taça dá muito jeito, está em cima do frigorífico, e guardo lá as pastilhas Ratribom 2. O Serra D’Aires comeu uma e teve que beber azeite puro, água com sal e água oxigenada para escapar. 3ª geração de veneno para ratos, segundo a prestável veterinária do SOS animais. Já me baralho. Já me vou sentindo fora da história…

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Foda-se!

Março 2, 2009 · Deixe um comentário

Lembras-te de como nos reunias na tua casa de banho para dizermos asneiras? De como achavas saudável? Pois então; foda-se. Culpa tua, também aprendi a falar português para ucranianos. Criolei a nossa língua quando abri em minha casa uma escola de português para emigrantes de leste, já lá vão dez anos. Sempre digo (tenho um russo a viver em minha casa há 3 semanas) que a melhor maneira de nos vermos é nos olhos dos outros. Hoje, o H., que como sabes dá cartas na música e tem o melhor blog de nova música (best new music) (sei que te estás nas tintas mas tem 2.000 (duas mil) visitas diárias) agradeceu-me ter recortado e deixado debaixo da porta um artigo sobre Moondog. Se não fosse ele, Moondog teria ficado nos meus arquivos com um gajo estranho que viveu numa esquina da 5º avenida, e que por acaso até compunha umas músicas. E que por acaso até foi o precursor da música minimal. Mas foi com o Naunemo (H) que “por acaso” descobri que nele se inspiram Snoeleoparden e os rapazes que fazem a nova música. By the way, tu que sabías destas coisas, quem limpou o sebo ao Nino Vieira? Não, sem ser a história dos mercenários e as plataformas da droga! Pronto, tá bem, mas eu já não vou para o café de cada vez qe não me podes dar uma resposta. Moondog. Boa música, um gajo quue vivia numa esquina em Nova Yorque, quase existencialista. E depois eu é que sou alienada. Havemos de falar… 

 

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Será que ainda lá vive?

Fevereiro 28, 2009 · 1 Comentário

Começou a fumar por caminhos ínvios.

Aos 9 anos decidiu seguir a carreira pluralista da família e solidarizou-se com o contínuo do prédio. Chamava-se Pedro, era negro e já tinha cabelos brancos. Sinal de grande respeito. Pedia-lhe cigarros e fumava-os agachada atrás do portão das garagens. O homem ficava de plantão à sua frente, para que não a vissem. Ela gostava da cumplicidade e ele enchia-se de medo que descobrissem que dava cigarros à menina branca. Além disso os negros não ganhavam tanto assim para poderem distribuir cigarros.

Quando tiveram que deixar Luanda, a mãe entregou as chaves de casa ao Pedro.
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Tendencias

Fevereiro 22, 2009 · 1 Comentário

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Decidiu esquizofrenizar-se. Assunto arrumado. As veias de que não gostava pertenciam à outra. A chata, a burra, a tal que nem sempre acerta. É certo que se desentendiam uma ou outra manhã, mas a coisa compunha-se com o cair da noite. Lá se sentavam quentinhas no sofá, a ver o telejornal. Comoviam-se com os mesmos dramas, riam das mesmas piadas e iam sempre juntas ao café. Tinham as mesmas mãos a puxar para o feio, a pedir manicura e a mesma moinha nos rins. O certo é que gostavam delas sempre pelas mesmas razões. O cabelo, o sorriso, o rabo, ai o caraças, não te disse para não vestires as 501? Mas dizem sempre que fico com rabo de rapazinho, pensava que era “não bom”, eu dou-te o não bom, veste mas é o vestido, mas com o vestido dizem que tenho pernas de 16 anos, tá calada, olha mas é para o BI, mas eu não tenho culpa, então fica em casa, que passo a sair sozinha, ai isso é que não, depois quem é que te defendia, não preciso de ninguém que me defenda de mim mesma, não é de ti, pá, é dos gajos, quais gajos, pá, quais gajos, os mitras daqui do sítio? Então vai para Lisboa, oh tansa, isso é que era bom, então ficamos aqui, não ficamos? Ficamos, pois.

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Em cuidados

Fevereiro 15, 2009 · 4 Comentários

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Sua Santidade, o Papa, considera a leitura (textos, artigos, livros, bulas médicas e afins não religiosos) “tão demoníaca, embora menos maléfica que o nazismo”. Fico mais descansada com este bom pastor. Aliás, sempre apostei muito na igreja católica.

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Recordo que…

Fevereiro 14, 2009 · Deixe um comentário

 

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… amanhã é Domingo e fico um tanto belicosa

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Coca Cola! Coca Cola!

Fevereiro 10, 2009 · Deixe um comentário

A senhora desculpe; um QI muito acima da média, aprender a ler sozinha aos três anos, e esse quadro de ansiedade, o diagnóstico é só um: TDAH. Desculpe? Transtorno do Deficit de Atenção Hiperactividade. Sim, dr., e depois? Depois, depois existem as anfetaminas, em doses controladas. DEUS EXISTE!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! E existiu durante dois anos. A seguir foi o olho arramelgado, mas sem ramela. Aquela dorzita aqui e ali, as palavras que fugiam, arroz, por exemplo. Já se tinha deixado de naftalinas. Andava desconfiada, por muito que gostasse daquilo. Esclerose multipla, a menina tem esclerose multipla, é o que é. E então, a hiperactividade? Afinal não é. E agora? Agora vai ficar coxinha, vesga, gaga e gágá dentro de pouco tempo. Foda-se, meu Deus, que era crente, diga-se de passagem. Pois. Pois porra nenhuma. Marrou, marrou, você é louca, louca já eu sou, sô dôtor, deixe-me andar. Que coiso, que hormonas, que cortisonas, gosto mais de cortesãs, dôtor, você é doida, deixe-me andar, dôtôr, volta a incomodar-me pespego-lhe com mais um til no nome, puta que pariu, foi ao médico lá da aldeia, disse que o médico da américa tinha mandado fazer este e este e este exame, a última tecnologia, e não é que era mesmo o que pensava? A puta da clamídia das anginas tinha passado a barreira sangue/cérebro e lá estava recostada no orgão pensador, muito quentinha!!! Qual coxinha, qual gaga qual gágá. Só tinha que fazer antibioterapia e controlar a bicha. FIM. 

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Não me apoquenta nada…

Fevereiro 3, 2009 · Deixe um comentário

… que a vida seja um lugar comum.

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Bir demet yasemen

Fevereiro 2, 2009 · Deixe um comentário

Bir demet yasemen    

(No jardim dos jasmins)


Por más que me lamente, mí deseo

no ve, ni oye, ni comprende esperas;

y por más que me aleje, mí deseo

surge de mí y te llama.

 

Es inutil llorar,

es inutil morir;

el deseo esta aquí,

como sale el sol al amanecer.

 

(Poema tradicional tunisino)

Excerto


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Sem legendas

Fevereiro 2, 2009 · Deixe um comentário

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