A morena impressionou-me desde o primeiro minuto. Tinha um blusão de ganga com forro de flanela rosa, com o Mickey estampado. Era ao mesmo tempo um blusão de lutador de boxe. E calças de ganga, botins de camurça amarelos e uma camisa de homem branca. Encostada à moldura da porta da pensão Rocio, de mãos os bolsos. Sem eu saber como, está na minha mesa. Talvez convidada de algum amigo. É cumprimentada com deferencia por homens de cinquenta e sessenta anos que passam por ali. Um ou outro cigano dá-lhe as boas tardes. Quando passei por aqui hoje mais cedo estava sentada com um homem corpulento, tatuado e sem os dentes da frente. Pareciam íntimos. Sorriam e contavam piadas, pensei. Agora diz-me que vive por aí, entre a Pensão do Galego e as escadas dos prédios da Calçada de Santana. Quero saber da família, mas fica pouco à vontade. Os olhos correm de um ponto ao outro da Praça, dos que se apressam para apanhar o autocarro aos que vão chegando. O transito a esta hora é violento. Quero saber se estuda, e diz-me que deixou a escola por alturas do gonçalvismo, voltou lá com o filho recém nascido de uma amiga e explicou aos professores que não podia continuar nas aulas. À mãe prometeu acabar o liceu e formar-se. Tinha que fazer os exames do quinto e sétimo ano brevemente. Como? Não sabia, mas tinha que cumprir. Foi essa a troca. “Desde que acabes a escola…” Queria estudar ciências politicas. Tinha estudado línguas na Alemanha, depois da operação ao braço. A mãe levou-a para lá quando achou que a revolução a estava a desencaminhar. Preocupavam-na as eternas calças de bombazina preta e as camisas vermelhas de xadrêz. Estava cansada de se preocupar com ela a cada manifestação de estudantes. As coisas agora eram diferentes. Sempre que telefonava aos amigos para saber se a filha tinho sido presa, a coisa pertencia invariavelmente a uma outra polícia, sobre a qual pouca influencia tinha. Eles eram mais das secretas, ultimamente diluídas na Policia Judiciária. Os amigos do pai dividiam-se entre mortos e subversivos. Ou traficantes de diamantes. Ou recrutadores de mercenários. Viviam nos subúrbios e encontravam-se também eles ali no Rocio. A mãe tería preferido paixonetas, histórias de amores adolescentes, mas a coisa tinha acabado onde começara: naquele namoro forçado para contentar os amigos, com o rapaz bem parecido, loiro e deferente que lhe cingiu a boca, do queixo ao nariz num primeiro beijo desastrado. Sentiu-se ridícula, e durante anos não quiz saber de amores. Ainda se iludia com o perfume do Pantera, mas agora que todos usavam patchouli, passaram a ser indiferentes. Perguntei-lhe o que andava a fazer, onde morava agora.
- Ali em Sete Rios – respondeu.
- E então, a pensão do galego, já não estás lá?
- Enquanto estava no Norte a fazer as fotografias para a revista de turismo o galego entrou no quarto, viu a porta do roupeiro a fazer de bancada de cozinha e não gostou. Achou que eu já não morava lá e pôs o Lucio na rua. Imagina que guardou a minha roupa, para quando eu chegasse. Não a quis entregar… Mas depois ainda fui morar para o Hotel Neto, em Sintra.
- Não mora lá o Chico Cigano?
- Morava, e eu morava com ele, na suite imperial. Dormia num colchão de espuma na sala, e em troca tinha que lhe fazer o jantar todos os dias. Com o dinheiro que ele roubava das lunetas, imagina. Comiamos todos os dias a mesma coisa, mas ele ficava feliz desde que houvesse sopa e um prato.
- E a polícia? Era mesmo ali ao lado!
- Bem, a polícia só vinha recolher as lunetas, nunca ficavam estragadas. O braço direito do Chico já não funcionava, depois da queda da moto, por isso ele fazia as coisas com jeito. Não é em vão que todos gostavam dele.
- Gostavam?
- Não sabes? Morreu! Uma semana depois de eu me ter mudado. Não comia desde aí, foi ao snack da Portela, deram-lhe um bife e engasgou-se. Saiu discreto e quando o empregado lhe sentiu a falta, foi lá fora e já o encontrou morto. Senti-me mal, muito mal. Ainda acho que se não me tivesse vindo embora ele não teria morrido. Eu fazia-lhe o jantar, e ele protegia-me.
Mostrou-me o corte no polegar. Uma lata de concentrado de tomate, das mais pequenas. O roteiro repetia-se a cada fim de tarde. Com as moedas das lunetas comprava um chouriço, uma embalagem mini de tomate, um pacote de massa e batatas na mercearia da Vila Velha. Passava pela estação de comboios e rapava uma folhas de couve. Caldo verde com chouriço e bolonhesa. Ainda dava para o vinho dele, garrafa cinco estrelas.
-Tenho saudades dele. Sabes que nunca me contou a história da mulher? E eu também tinha medo de lhe perguntar. Eu já sabia do circo, das facas, de ela ter fugido, mas gostava mesmo de o ouvir contar. Nunca me deixou usar a casa de banho do andar, e eu tinha que fazer xixi pendurada no parapeito, ele a agarrar-me os braços, para não cair. Os do Hotel Tivoli odiavam-me. Os turistas divertiam-se com o meu rabo lá no quarto andar e a parede molhada. Para o resto, usava a casa de banho do Central. Tomava banho no quarto do Michel, lá em baixo, no outro hotel. Mas ele voltou para a Guiné, com o projecto da Unesco. Foi uma atrapalhação quando lhe pedi a máquina fotogafica e as lentes. Não dormia com medo que as roubassem, e o Chico mandou-me amarrar tudo ao pulso durante a noite. Os dos outros andares podiam apanhar-me adormecida, e era o cabo dos trabalhos.
- Pensava que o Chico tinha sido sempre assim. Bêbado e desocupado. – Interessava-me agora. Conheci o Chico Cigano na Taberna da Vila Velha. Vi que era estimado por todos. Tinham-lhe carinho. Na taberna nunca lhe cobravam o que bebia, por exemplo.
Não me respondeu. Estava entretida com um garoto que se lhe sentou ao colo. Tentava mostrar-lhe o arremesso de bigode. Tinha pintado o cabelo e ela ria-se. Estou a ficar homem, não estou? Com esse cabelo não vais longe. Encontrei um frasco. Encontraste ou roubaste? Encolhe os ombros. Não estavas hoje no autocarro. Já se nota? Se rapar todos os dias cresce mais depressa, não cresce? Também roubaste a gilete? E por cima do ombro dele: Este meu amigo chama-se Cedet, que é José em estrangeiro e já foi ao Algarve e voltou no mesmo comboio. Vens ter comigo à entrada das pensões? Vem, vá lá. Estamos lá todos. A morena traduz-me: a entrada do palácio da Horta Seca, onde agora se pagam as pensões de sangue fica aberta depois do expediente. Foi lá que se conheceram. Ela a tratar da pensão de sangue e ele a tentar roubar. Tinha nove anos. Pira-te, puto! Porquê, és dona disto? Sim! Da casa???!! Sim!!! Tándar!!! Da casa? Já disse, andor! A casa é tua? Sai daqui! Já ele estava na rua, à frente do dedo estendido. Ameaças de canivete e uma chapada desarmante na mão. Voltou para a bicha dos títulos. Ia lá todos os meses. Á saida viu-o com os amigos. Urdia vinganças. Depois encontrou-o no autocarro. Então, já te vingaste, ou é agora? O miudo não tinha bilhete, melhor era não fazer escandalo. Ela obrigou-o a sentar-se ao seu lado, e foram o resto do caminho a rir. Ria do nome, ria dos modos e ele lá se foi encaixando debaixo do braço dela. Percebeu que com aquele rapazinho não se falava de pais nem de famila, nem de casa. No dia seguinte, lá estava ele no autocarro. E nos outros dias, por muito que alterasse os horários. Tocava gaita de beiços, berrava, perguntava se era bonito e ela encolhia-se no banco, a rir.
- Ele acreditou que a casa era tua?
- Pareceu-me, mas não era por aí.
- Ainda te lembras da tua casa? E da dos teus avós?